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Aaron Swartz

Cinco anos antes de inventarem a Wikipedia, um garoto de 12 anos apresenta um projeto escolar com exatamente a mesma ideia, com o nome de The Info, gerando a seguinte reação de um de seus professores: “de onde você tirou essa ideia terrível? Porque alguém iria querer que outras pessoas possam editar o seu dicionário? Pra isso temos os estudiosos que escrevem esses livros pra nós!” Não por acaso,Aaron Swartz, sempre teve certa aversão à escola, o que o levou, desde de cedo, a estudar sobre a história da educação e começar a desenvolver formas alternativas e eficazes pelas quais as pessoas pudessem realmente aprender as coisas. O The Info ganhou um concurso escolar organizado pela Universidade de Cambridge.

Aos 13, foi um dos principais desenvolvedores da ferramenta RSS (Really Simple Syndication ou Rich Site Summary), hoje utilizado por milhões de sites e usuários ao redor do globo. Graças a este recurso, sites e blogs podem divulgar conteúdo novo de maneira rápida e precisa, permitindo que usuários possam reunir conteúdo de vários sites de seu interesse em um único leitor de RSS. Por isso, ao invés de gastar horas vasculhando a web, as mensagens de assuntos previamente selecionados, chegam até os interessados através de feeds. O RSS revolucionou a forma de consumo de conteúdo na web, ou seja, está tendo um grande impacto no mundo.

Mas Aaron não parou por aí. Ele era fascinado pela questão dos direitos autorais, que protegidos por uma legislação anterior à internet, inevitavelmente, colidia com os novos meios de se consumir conteúdo. Aaron estava no meio da colisão entre o velho sistema e a internet e estava focado em ajudar a encontrar uma solução para uma transição mais harmônica e inteligente. Sua busca e interesse comum o levaram a conhecer o professor de Harvard, Lawrence Lessig, no Supremo Tribunal de Washington, onde este estava desafiando a lei de direitos autorais e criando uma nova maneira de definir direitos autorais na internet, chamada de Creative Commons. De forma bem prática, o novo conceito, hoje já aceito e utilizado em toda a web, substitui o “todos os direitos reservados” por “alguns direitos reservados”. conforme afirmou Lessig, é um jeito simples de dizer “isso é o que você pode fazer com meu trabalho”, ao invés de proibir todo e qualquer uso previamente. Aaron teve um papel fundamental no desenvolvimento da plataforma que, efetivamente, permitiu que o novo conceito fosse posto em prática. Quer dizer, aos 14 anos, o menino estava compartilhando um projeto com um professor de Harvard. Mas Aaron estava longe ser mais um garoto nerd, dotado de uma inteligência acima da média. Ele apresentava vários sinais de ser um jovem cordeiro, como esse aqui em seu blog pessoal: “eu penso profundamente sobre as coisas e eu quero que os outros façam o mesmo. Eu trabalho para ideias e aprendo com as pessoas. Eu não gosto de excluir pessoas. Eu sou um perfeccionista, mas eu não deixo que isso seja notado. Exceto para educação e entretenimento, eu não vou perder meu tempo com coisas que não terão impacto. Eu tento ser amigo de todos, mas odeio quando não me levam a sério. Eu não guardo rancor (não é produtivo), mas eu aprendo com a minha experiência. Eu quero fazer do mundo um lugar melhor.”

Em 2004, se matricula para uma bolsa na Universidade de Stanford e acabou sendo selecionado para um programa de estudantes brilhantes que em quatro anos estão destinados a se tornarem grandes industriais. Destino que Aaron rejeitou ao aceitar uma oferta para dar vida a um projeto próprio, através da startup chamada Y combinator, em 2005, largando assim os estudos e se mudando pra um apartamento que sustentava sozinho em Boston. Esse projeto viria a ser o Reedit, que veio a se tornar um dos sites mais populares da web, principalmente entre os geekys ao redor do mundo. Quando Aaron tinha 20 anos o site foi comprado por uma oferta milionária da revista Condé Nast. Aaron passou a trabalhar no escritório da revista em São Francisco e se viu em meio a burocrática e entediante rotina de uma empresa padrão. Pra piorar, tinha que usar um computador da empresa com um monte de porcaria pré-instalada e no qual ele estava proibido de instalar qualquer software, o que pra um programador é um ultraje. Desde os primeiros dias Aaron se queixa da vida no escritório, expondo isso em seu blog pessoal: “parede cinza, mesa cinza, ruído cinza. O primeiro dia aqui foi simplesmente insuportável. Na hora do almoço eu literalmente me tranquei no banheiro e comecei a chorar.”

Aaron larga a rotina de escritório e passa a focar seus esforços em entender como fluía o tráfego de informações na internet. Enquanto no sistema antigo de transmissão de informações, como a televisão, estamos limitados pela quantidade de canais disponíveis, na internet todos podem ser um canal, através de blogs ou redes sociais. Então, não é mais uma questão de quem tem acesso aos canais, mas sim de quem fica com o controle sobre as maneiras de se encontrar as pessoas. Nesse caso, vemos o poder centralizado no Google e outros grandes, como guardiões dos portões que informam onde na internet queremos ir, são as próprias pessoas que fornecem suas fontes de notícia e informações. Como bem apontou Aaron: “Agora todos tem licença pra falar. É uma questão de quem fica sabendo”. Então, Aaron jogou sua energia em projetos como o watchdog.org e o Open Library, que envolviam o acesso à informação pública e demonstravam seu entendimento sobre a importância de tornar todo e qualquer conhecimento acessível à grande massa. Seu desafio agora era: como trazer público acesso ao domínio público? Parece uma coisa óbvia, mas o fato é que não é assim que as coisas funcionam na vida real. Na maioria dos casos, ao tentarmos acessar materiais de “domínio público”, nos deparamos com grandes “portões trancados” e seus falsos “guardiões”. Como bem definiu Brewster Khale, fundador do Internet Archive: “é como ter um Parque Nacional com um fosso em volta e torres de armas apontadas, no caso de alguém realmente querer se aproveitar do domínio público”. Nos EUA, esse “portão” chama-se PACER(Acesso Público aos Registros Eletrônicos da Corte), um sistema do governo americano, com código de programação antigo, extremamente difícil de navegar e que requer cartão de crédito, pois há que se pagar para se ter acesso às páginas “públicas”. Conforme denunciou Carl Malamud: “O acesso a materiais legais nos EUA é um mercado de 10 bilhões de dólares”. Só o PACER, gera 120 milhões de dólares por ano. É claro que o governo sabe que isso é contra a constituição do país, mas dar acesso ilimitado à informação para o povo representa perigo para os lobos e é só isso que importa. Simples assim. Inspirado por Malamud, que vinha lutando contra a abominável existência do PACER, Aaron ajuda desenvolver um sistema de download em massa que chega a baixar 2,7 milhões de documentos judiciais federais do PACER, os quais seriam colocados em um site fundado por Malamud, no qual as pessoas poderiam visualizá-los gratuitamente, afinal, eram documentos públicos. O ato chamou a atenção não apenas do New York Times, mas também do FBI, que começou a vigiar Aaron e sua família. Acho que a essa altura, já deu pra entender que o FBI é o “pastor alemão” do governo, treinado apenas para proteger seus interesses sombrios.

Incomodado com a desigualdade da riqueza, Aaron agora começa a estudar como a política funciona e inclusive se envolver diretamente em novas formas de exercê-la, criando assim o “Comitê de Campanha Mudança Progressiva”, que tinha como objetivo eleger líderes progressistas em todo o país. Sendo mais claro, ele estava fazendo algo para tirar os velhos lobões do poder e colocar gente nova e esclarecida no lugar pra tentar mudar as coisas em seu país. Mas isso não o impediu de continuar a buscar soluções para tornar informações relevantes acessíveis à qualquer pessoa. Foi então que ele entrou na batalha que culminaria em sua morte, contra a organização JSTOR, um dos “guardiões” de publicações acadêmicas, para os quais todas as universidades dos EUA são obrigadas a pagar pelo acesso. Milhares de artigos e publicações que representam a riqueza do conhecimento on-line, longe do alcance do povo, sendo que muitos foram pagos com o dinheiro do contribuinte ou subsídios do governo. Aaron acreditava que esse conhecimento era um legado de toda a humanidade e não deveria ficar trancado sob o poder de meia dúzia de organizações que lucravam fortunas com isso, enquanto os autores das obras não viam a cor do dinheiro. Como um aluno prestigiado de Harvard, ele conhecia usuários da famosa rede aberta doMIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), com acesso autorizado às riquezas da JSTOR. Para um programador com suas habilidades e acesso, não foi difícil plugar um notebook no servidor do MIT e fazer o download de milhares de arquivos da JSTOR, que acabou por bloquear o acesso à rede em todo o MIT. As autoridades descobriram seu notebook nos porões do MIT e ao invés de bloqueá-lo, instalaram uma câmera de vigilância no local, já com a intenção de fazer disso um caso de polícia. Com as imagens em mãos, a polícia vai atrás de Aaron e o prende. Dois dias antes de sua prisão, o serviço secreto dos EUA assume o caso. O lobo George W. Bush, presidente anterior, criara uma rede chamada “Força Tática contra Crimes Eletrônicos”, com o objetivo de conter supostos “terroristas modernos”, como ele mesmo afirma. Aaron foi enquadrado nessa categoria pelo promotor Stephen Heymann, que havia ficado famoso após prender o notório hacker, Albert Gonzalez, responsável pelo maior roubo de cartões de crédito e contas bancárias da história. Não há, em hipótese alguma, a menor possibilidade de colocarmos Aaron na mesma categoria de qualquer criminoso, uma vez que ele não cometeu nenhum crime, apenas estava lutando para dar ao povo o que é do povo por direito: o acesso ao conhecimento. Embora não houvesse provas sobre as reais intenções de Aaron com relação aos arquivos baixados, seu ativismo social deixava claro qual era sua posição. A perseguição do governo contra Aaron foi tanta que após ele ser preso pela segunda vez e colocado na solitária, a JSTOR, maior vítima do caso, tira todas suas acusações contra ele e se recusa a seguir com o caso. Mas o promotor do governo insiste em perseguir Aaron e segue com o caso, disposto a fazer dele um exemplo para hackers criminosos. A família de Aaron chegou a pedir para o MIT intervir e pedir para o governo parar com a perseguição, mas o mesmo não se manifestou. Contraditoriamente, o MIT é o lugar que incentiva o “hackeamento” no maior sentido da palavra, segundo o professor de Harvard, Lawrence Lessig. Trafegar por rotas não autorizadas não é apenas um rito de passagem, mas faz parte do conceito do MIT. Por isso, quando a perseguição do governo se intensificou, a não defesa de Aaron pelo MIT foi visto como algo escandaloso diante de sua comunidade. Conforme bem colocado por seu pai: “se você olhar para Steve Jobs e Steve Wozniack, eles começaram com a venda de um bluebox, que era uma coisa projetada para defraudar a companhia telefônica. Se você olhar para Bill Gates e Paul Allen, verá que inicialmente começaram seus negócios usando os computadores que usavam em Harvard, o que era muito claramente contra as regras. A diferença entre Aaron e essas pessoas que acabei de mencionar é que Aaron queria fazer do mundo um lugar melhor, ele não queria apenas ganhar dinheiro”.

Aaron, ainda sob a mira do governo, agora foca suas forças para deter dois projetos de lei conhecidos como SOPA (Stop Online Piracy Act) e PIPA (Protect IP Act), um plano do governo para ter um controle abusivo sobre a internet, disfarçado de defensor dos direitos autorais. Após receber uma ligação do ativista Peter Eckerly, Aaron e ele iniciam uma campanha online massiva contra o SOPA. O Congresso, pego de surpresa, se vê obrigado a reprovar o projeto de lei quando até o próprio Presidente Obama vem a público declarar sua posição contra o SOPA. Não se deixe enganar, Obama é lobo. Sabe jogar o jogo. Tinha informação suficiente para saber que a campanha de Aaron tomava proporções gigantescas em todo o mundo e se antecipou para garantir popularidade. O suposto apoio do governo diante do público era contrário ao aumento da perseguição contra Aaron que agora enfrentava 13 acusações criminais e já era reconhecido como um dos principais líderes do ativismo socio-político do planeta, com apenas 25 anos.

No dia 11 de janeiro de 2013, Aaron foi encontrado morto em seu apartamento no Brookling de Nova York, num suposto suicídio por enforcamento.

Um de seus maiores influenciadores, Tim Berners-Lee, que é ninguém menos que o criador da internet (World Wide Web), afirmou: “eu acho que Aaron estava tentando fazer o mundo funcionar. Ele estava tentando corrigí-lo.” Na década de 90 Berners-Lee estava, sem dúvida, sentado em uma das invenções mais lucrativas do século 20. Mas ao invés de lucrar com a invenção da World Wide Web (daí o www na frente de todo endereço na internet), ele a doou ao mundo, de graça! Essa é a única razão pela qual a internet existe e hoje nós podemos nos comunicar através dela, como estamos fazendo agora. Ele entendeu que, assim como disse: “se tivesse olhado pra essa ideia como um negócio, certamente teriam existido muitas pequenas redes que não se conectam entre si e portanto não funcionam, em vez de uma grande”. Um fato curioso é que a maioria das pessoas sequer sabem seu nome, mas sabem o nome do lobo que foi responsável pelo holocausto. Assim são os humanos. Respeitam os lobos (por medo, é claro!) e ignoram os cordeiros.

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O criador da World Wide Web, Tim Berners-Lee

Sua família, amigos e colegas mais próximos (e isso inclui professores de Harvard) afirmam que ele foi morto pelo governo e que o MIT traiu todos os seus princípios básicos.

Para quem quiser se aprofundar em sua história, recomendo o excelente documentário The Internet’s Own Boy: The Story of Aaron Swartz, premiado no Sundance Film Festival de 2014. O documentário foi financiado coletivamente no Kickstarter, conseguindo US$ 94 mil, acima do objetivo inicial de US$ 75 mil. Logo no início, Aaron explica o simples motivo de pensar e agir da forma como fazia: “ao crescer, você sabe, eu lentamente tive esse processo de realização que todas as coisas ao meu redor, coisas que as pessoas tinham me dito eram apenas o caminho natural das coisas, a forma como as coisas sempre foram. Mas as coisas não são naturais. Elas poderiam ser mudadas e, isso é o mais importante, estavam erradas e deveriam ser mudadas. E uma vez que eu percebi isso, não havia mais como voltar atrás”. 

Assista aqui ao documentário:

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The author

Desde criança, sempre busquei a resposta para as seguintes perguntas: Quem eu sou? De onde eu vim? O que estou fazendo aqui? Pra onde eu vou? Essa busca acabou por se tornar prioritária em minha vida. Graças a todos que compartilharam e compartilham seus conhecimentos, tenho feito grandes transformações em minha vida. Assim, foi natural a decisão de compartilhar aqui as informações mais relevantes ao meu processo de evolução, inspirando cada vez mais pessoas a seguirem seus próprios corações.